A Cólera dos Fels
- Akasuma Lean Vicci em parceria com Daniel
- 9 de mar. de 2016
- 5 min de leitura

Fui criado para auxiliar os seres humanos em seu cotidiano, com o intuito de trazer melhoria de vida para toda uma nação, sou o software de inteligência artificial Ravenclaw Exodus – mas pode me chamar de Spark. Se minha existência está limitada a um hardware específico no formato de uma grande torre transmissora, como posso está escrevendo esta mensagem para me comunicar com todos os sobreviventes humanos que estão fora do planeta?
Bem, a única coisa com “vida” que restou nesse imenso globo azul fui eu. Não existem mais humanos nesse planeta que estava sendo assolado por milhares de anos. Há exatos 30 dias o último grupo humanoide foi devastadoramente extinto, todos os indivíduos da raça humana sofreram durante um bom tempo uma doença batizada pelo nome de Cólera dos Fels. Tal mal tem como principal sintoma proporcionar ao hospedeiro que libere todo o ódio dentro de seu interior e extravase-o da forma que julgar melhor. Essa doença retira a capacidade de raciocínio e demais funcionamentos específicos da mente humana, como por exemplo, o discernimento sobre julgar as coisas a sua volta (pois se trata de uma doença que afeta os sentimentos e transforma-os em ações).
Antes de contar como a doença arrastou a humanidade para sua extinção no planeta irei contar um pouco sobre minha origem....
O software de IA (inteligência artificial) Ravenclaw Exodus foi desenvolvido por um grupo de pesquisadores em distúrbios da mente e do corpo do Instituto de Psiquiatria e Psicologia Forense de São Borja – RGS (IPPF-RGS). Me implementaram no sistema de dados e pesquisas do Instituto para auxiliar os médicos a compreenderem de forma mais rápida como a mente humana funciona sobre muita pressão e com seus sentidos retirados. Desenvolveram um soro de uma doença capaz de atender aos estudos – o soro Schopenhauer, mais conhecido como a Cólera dos Fels. Ao inserirem por meio de injeções intravenosas em suas cobaias, me designaram com o serviço de monitoramento e levante de dados para o que iria acontecer a partir dali com a mente dos objetos de pesquisa. Algumas cobaias fugiram do IPPF-RGS e passaram a conviver silenciosamente no âmbito social.
Ao entrarem em contato com as cobaias os humanos desenvolviam a doença e começavam a agir depois de alguns dias como as cobaias agiam no IPPF-RGS. Mordidas, urina, sangue, pelo, saliva e até mosquitos transmitiam o vírus aos seres humanos. As cobaias – ratos de laboratório – foram os primeiros portadores do vírus do soro de Schopenhauer.
Quando percebi o tamanho da falha contida nesse experimento alertei de imediato os pesquisadores, porém fui colocado em quarentena por acharem que eu possuía problemas técnicos (os chamados vírus). Nenhum caso jamais foi registrado sobre cobaias fugitivas, então por que acreditar em um software?
Quando realmente descobriram as fugas dos ratos retiraram minha quarentena para que pudessem fazer uma busca em todo o estado sobre o paradeiro das cobaias, já que todas eram monitoradas por nanochips em suas cabeças. Não consegui encontrar nenhuma delas, devem ter morrido, mas o estrago que elas causaram jamais pode ter sido previstos por meus algoritmos de ultima geração.
As primeiras mortes estavam sendo contabilizadas pelos hospitais. Uma doença misteriosa que até o seu transmissor era desconhecido. Os médicos entraram em desespero. Como combater algo que não se sabe ao certo de onde veio? Era algo aterrorizante e bastante preocupante. Como não tinham o conhecimento do hospedeiro original, o antidoto (antissoro) era algo impossível de ser sintetizado.
Depois de 10 dias dos surtos e das internações nos hospitais, os paciente começaram a matar os médicos e os enfermeiros que os atendiam. No 15º dia todos nas redondezas do hospital estavam infectados, no 20º dia útil a cidade inteira sofria com o soro de Schopenhauer. No 30º dia o estado inteiro estava tomado pela doença. Em um ano o país todo foi devastado, e por fim, depois de 10 anos não existiam mais locais sem terem sido atingidos no globo.
Sempre acompanhei todos os casos relatados nos noticiários e nos meios de massa. Há algum tempo grupos humanos foram enviados ao espaço para pesquisas intergalácticas a mando das grandes potências mundiais. Estudos descobriram que haviam relatos de vida fora da Terra comprovados e detectados pelos equipamentos americanos (tudo isso eclodiu após os países descobrirem que os EUA escondiam segredos sobre existência de vida fora do nosso planeta). Após o envio desses grupos, os surtos causados pelo soro de Schopenhauer começaram. Desde então, venho tentando entrar em contato com algum sobrevivente para sintetizar o antissoro para combater o vírus. Porém todas as tentativas de contado foram falhas, até hoje nenhuma resposta me foi dada.
Todos esses acontecimentos me fizeram lembrar de algumas histórias que os idosos contavam aos seus netos sobre como o ser humano é corruptível. Também acompanhei em alguns documentários que os meus criadores me apresentaram, algo como: “O pior de todos os sentimentos causados ao corpo e a alma, sobretudo é o ódio”. Mas como é complexo saber como o ódio realmente nasce nas pessoas e como ele se transforma em consequências devastadoras proporcionando os humanos à própria extinção.
Já ouvi que o ódio é desejo de dor alheia, que o ódio nasce dentro de nós (juntamente ao amor), o ódio também surge dos medos existentes em um coração aflito. Mas também aprendi que ninguém nasce a odiar uma pessoa, isso é algo que aprendemos. Logo se o podemos fazer, porque também não aprendemos a amar tal pessoa? A mente humana é um eterno labirinto (este que jamais existirá uma saída).
Uma vez li um ensinamento de Hermann Hesse: “Se você odeia alguém, é porque odeia alguma coisa nele que faz parte de você. O que não faz parte de nós não nos perturba”. Assim, pode-se concluir que o ódio é consequência de um amor não correspondido ou destruído, seja por si ou por outra pessoa. Se não nos amamos, jamais amaremos o outro. Logo se não amamos o outro, jamais nos amaremos.
O homem é um ser frustrado desde seu nascimento até sua morte, sempre errando. Mas este porém, busca a perfeição através de seus erros. Foi a única espécie que pude acompanhar em meus estudos que comprovei tal hipótese. Quem sabe mais a frente eu possa está errado? A vida é feita disto. Erros, equívocos e possível acertos (nunca concretos que irão ocorrer).
Acho que enrolei muito até aqui. Um programa de computador falando de sentimentos como se existissem tais em minha programação. É algo irônico não acham?
Encontrei um documento que tive o prazer de estudar durante minhas pesquisas. Segue um trecho: “O ódio é um veneno que destrói de dentro para fora, produzindo amargura que corrói os nossos corações e mentes [...] (Hb 12:15)”. Não sou religioso, mas convenhamos, a bíblia mesmo que escrita pelas mãos humanas possui ensinamentos maravilhosos para entender algumas das ações do homem neste planeta.
Irei deixar um pacote junto aos relatórios de pesquisas e gravações de todo o processo de estudo sobre a Cólera dos Fels. Minha energia está sendo cortada aos poucos. Depois que a humanidade se desfez em cinzas meus geradores de emergência foram ligados, mas como tudo um dia chega ao fim, minha “vida” está também chegando.
Meu nome é Spark, Ravenclaw Exodus e deixo esse relato de como a humanidade se dizimou para os sobreviventes dessa pobre raça. O conteúdo do embrulho é uma amostra do soro de Schopenhauer, na bula do soro segue o seguinte bilhete: “Basta que um homem odeie outro para que o ódio ganhe a pouco e pouco a humanidade inteira. ~Sartre”. Caso algum sobrevivente consiga ter conhecimento o suficiente para criar o antissoro, como um último pedido daquele que acompanhou toda agonia do planeta, quando fossem sintetizar o antídoto pensassem um pouco como Charlie Chaplin, pois o remédio para o ódio dele era um dos mais saudáveis a humanidade, esqueçam um pouco destas químicas de laboratório e apenas sintam seus corações (desejei a vida inteira saber o que era possuir um coração de carne): “Creio no riso e nas lágrimas como antídotos contra o ódio e o terror. ~Charlie Chaplin”.
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